Por Miriam Rittmeyer, CEO da Phalarope, integrante da Equipe de Consultores Técnicos da Fundação Rotária e associada do Rotary Club de Savannah East, EUA

Juliana Tuc Tuc Ajmac, parteira e agente de saúde, com a coordenadora de campo Doris Sepet e a moradora da comunidade Maria Cuc, Guatemala.

Numa pequena casa na zona rural de Tecpan, na Guatemala, Dona Fidelia está ao lado de uma mulher grávida, ouvindo-a e examinando-a cuidadosamente. Ela já acompanhou partos durante anos, mas agora desempenha um papel mais amplo num projeto de saúde materna apoiado pelo Rotary.

Atualmente, ela realiza visitas domiciliares estruturadas, detectando condições como diabetes gestacional, monitorando fatores de risco e orientando as famílias em decisões que podem determinar o resultado de uma gravidez.

Dona Fidelia não trabalha sozinha.

Ela faz parte de uma rede crescente de agentes comunitários de saúde, parteiras, curandeiros e líderes locais, treinados para identificar riscos precocemente, educar e conectar famílias a serviços de saúde, quando necessário. Essa abordagem comunitária é o cerne do projeto.

Agentes de saúde e parteiras Maria Morales Morales, Josefina Batz Poyon, Emiliana Vargas Tol e Dona Santos Rabinal Conos, Guatemala.

É aqui que o trabalho começa: não nos hospitais, mas nas casas.

Este projeto centrado na comunidade — apoiado pela Fundação Rotária e por distritos e clubes do Rotary — expandiu-se de projetos-piloto locais para um sucesso transfronteiriço.

Cruzando fronteiras

Este modelo não se limita à Guatemala. Na região Ngäbe-Buglé do Panamá, Enedilsa Méndez, professora e parteira de Lajero, enfrentou uma situação que exigia ação imediata. Durante uma visita, ela identificou sinais compatíveis com pré-eclâmpsia (hipertensão durante a gravidez), uma condição que pode rapidamente se tornar fatal tanto para a mãe quanto para o bebê. Graças à sua formação, ela não hesitou.

Enedilsa Méndez, parteira e agente de saúde, com o Dr. Emilio Ibrahim Castillo, Panamá.

Acompanhou a mulher até o hospital e apresentou o caso diretamente na sala de emergência, garantindo que o atendimento não fosse atrasado. A paciente foi rapidamente transferida para o Hospital da Mulher Obaldía, em David, onde foi realizada uma cesariana de emergência. O bebê nasceu saudável e tanto a mãe quanto o filho puderam se recuperar em casa, com o apoio de visitas pós-parto de agentes comunitárias de saúde. As mulheres não estão mais chegando aos serviços de saúde apenas em momentos de crise – elas estão chegando no momento certo.


Um modelo concebido para a ação

Essa é a diferença que o modelo de assistência à saúde comunitária visa proporcionar:

  • Reconhecer o risco precocemente
  • Agir sem demora
  • Garantir a continuidade entre os cuidados comunitários e clínicos.

A força do programa reside não apenas nas ações individuais, mas em como ele se desenvolve.

No centro dessa expansão estão os instrutores comunitários, indivíduos das mesmas comunidades que falam o idioma, compreendem a cultura e inspiram confiança. Eles sustentam e expandem o projeto muito depois do término do treinamento inicial. São responsáveis por dar continuidade ao desenvolvimento de habilidades, orientar novos agentes e garantir que o conhecimento permaneça enraizado localmente.

Instrutoras comunitárias Eloisa Santo Jimenez, Fidelina Ruiz Macho, Florinda Zurdo e Emelina Rodriguez, Panamá.

É assim que o programa passa de um projeto com apoio externo para um projeto comunitário. 

Não é mais algo introduzido de fora.
É algo que as próprias comunidades mantêm e expandem.

Uma característica fundamental desta iniciativa é a integração intencional dos sistemas de conhecimento indígena no programa. Embora os modelos de crenças sobre saúde e doença variem entre os países, eles compartilham princípios comuns, particularmente a conexão entre saúde, meio ambiente e harmonia com a natureza. Parteiras indígenas e membros da comunidade ajudaram a moldar os materiais de treinamento e os questionários, garantindo relevância e apropriação cultural. Isso criou um processo de aprendizagem bidirecional, no qual as comunidades fortalecem as práticas de encaminhamento e prevenção, enquanto os profissionais de saúde adquirem uma compreensão mais profunda das perspectivas indígenas.

Um exemplo marcante disso ocorreu quando coordenadoras da Guatemala (uma enfermeira maia) e do Panamá (uma professora ngäbe) se encontraram. Embora o espanhol fosse a língua comum, as duas trocaram palavras em kaqchikel e ngäbere. Elas se entenderam e reconheceram o quanto tinham em comum em suas lutas e vitórias. Para mim, como médica que trabalha com comunidades há décadas, momentos como esse reafirmam por que escolhi a saúde pública.

Suporte técnico — fortalecimento, não substituição

Nurmi Rodriguez, Camillo Castrellon, Florinda Zurdo (instrutrora), Dra. Miriam Rittmeyer, Patricia Mendoza (coordenadora de campo) e Sabina Rodriguez, Panamá.

Sob minha liderança técnica e a da minha equipe, o modelo foi concebido com um objetivo claro: fortalecer aquilo que as comunidades já fazem.

O treinamento se concentra em:

  • Identificação de fatores de risco antes e durante a gravidez
  • Reconhecimento de sinais de alerta
  • Facilitação do encaminhamento oportuno
  • Educação em saúde preventiva
  • Acompanhamento de mães e recém-nascidos

O sistema do programa estende os serviços essenciais de saúde materna e reprodutiva à comunidade, mantendo-se alinhado com os sistemas formais de saúde.

Não se trata de cuidados paralelos.
Trata-se de cuidados integrados.

Bons resultados

Recém-nascido de Cerro Otoe, Comarca Ngäbe-Buglé, Panamá.

Resultados positivos são visíveis de maneiras mais discretas.

Em gestações mais saudáveis.
Em encaminhamentos precoces.
Em famílias que retornam para casa em segurança com seus recém-nascidos.

Noemí Agrego com seu bebê em casa, em Lajero, Panamá.

As comunidades são fortalecidas para que possam liderar suas próprias soluções.

O cuidado não termina com o nascimento; ele continua por meio de acompanhamento, orientação e apoio dentro do lar.

Essa continuidade é o que transforma os resultados.

Do modelo comunitário à integração com o sistema de saúde

Entre 2021 e 2025, os projetos apoiados pelo Rotary demonstraram que esse modelo de saúde materna liderado pela comunidade funciona.

Agora, a próxima fase está em andamento.

Na Guatemala, o programa está avançando como uma demonstração nacional em colaboração com o Ministério da Saúde e o UNFPA, com o apoio financeiro da Fundação Rotária.

Esta fase não é um novo projeto-piloto. Seu objetivo é demonstrar como o modelo funciona dentro de um sistema nacional de saúde, incluindo:

  • Coordenação com as autoridades regionais de saúde
  • Sistemas de encaminhamento e contra-encaminhamento reforçados
  • Integração com programas nacionais de monitoramento e treinamento

O objetivo é claro: passar de sucesso comunitário para escala institucional.

Como rotarianos, frequentemente nos perguntamos: “Onde nosso investimento gera mudanças duradouras?”.

Ao longo dos anos, o Rotary tem apoiado o modelo de assistência à saúde comunitária, desde seus estágios iniciais de projeto-piloto na Guatemala até sua expansão para dois países.

O que estamos testemunhando hoje não é resultado apenas de intervenção externa.

É o resultado de comunidades que lideram suas próprias soluções, apoiadas por parcerias que respeitam e fortalecem essa liderança.

Associados do Rotary Club de Boquete (Panamá) preparam suprimentos médicos em apoio a parteiras e curandeiros tradicionais.

Reflexão final

A mortalidade materna não pode ser reduzida apenas por meio de cuidados clínicos.

Exige confiança.
Exige compreensão cultural.
E, acima de tudo, exige que as próprias comunidades estejam no centro da solução.

O que começou como um pequeno projeto agora está se transformando em um modelo de mudança sistêmica.

E essa mudança está sendo liderada passo a passo, de casa em casa, pelas próprias comunidades.